O leva e traz e o preconceito linguístico

Detalhe do painel "Identidade" de Jose Kura.
Rodoviária de Chapecó - SC
Muito me decepcionei com a minha pessoa recentemente. Foi quando descobri o meu preconceito linguístico. Nem sabia que ele existia, muito menos que eu o tivesse, e menos ainda que já fui vítima dele.
Foi lendo alguns escritores e linguistas como Marcos Bagno e Carlso Alberto Faraco que percebi.
O preconceito parte daqueles que se consideram grandes conhecedores da "língua culta" e discriminam pessoas ou grupos pela forma "errada" do seu falar. Errada? Pois é...

Aí lembrei de Joana... Por lá, usávamos apenas o verbo levar para indicar o que era carregado. Tudo se levava, nada se trazia. Era assim: leva isso para lá, leva para cá, leva embora. E assim nos entendíamos  muito bem, até que fomos para a escola e a professora Neiva nos disse que a partir daquele dia, nada de levar os livros para escola e levar os livros para casa. Agora devíamos trazer os livros para a escola e levá-los para casa. Voltamos com a novidade. "Mãe, a professora disse que vamos trazer os livros para a escola e levar para casa". "Não, não... agora você está em casa. Então você traz para casa e leva para a escola". Danou-se. Mesmo hoje, se estiver muito distraída, confundo.

Só depois de muito crescida, descobri a provável origem do "erro", e de vários outros parecidos. Joana é uma colônia italiana. Nossos pais e avós falavam o dialeto Vêneto. Nele, existe 'portare' para traduzir 'carregar'. Tudo o que é levado ou trazido é 'portato'. É o complemento que define a direção: para lá, para cá... Traduziram o ´portare´ para 'levar' e ficou tudo certo. Não desconfiavam que 100 anos depois isso poderia virar motivo de preconceito contra seus filhos.

Mas, comemoremos! Alguns estão assumindo que a língua é realmente viva, construída diariamente nos diferentes falares, não pode ser aprisionada em gramáticas, tornar-se propriedade de alguns iluminados.

A língua, e a forma como a falamos, é pedra fundamental de nossa identidade cultural. Dizer que a língua que falamos está errada é dizer que somos errados(?), é arrancar nossa identidade pela raiz. E esse é o sonho dourado de todos os colonizadores e tiranos.


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